Dra. Fabiana OlivettiHepatologia

Cirrose e hipertensão portal

Cirrose e hipertensão portal

Entender em que fase a doença está ajuda a definir como proteger o fígado e prevenir complicações.

A cirrose é uma condição crônica caracterizada por alterações estruturais no tecido hepático. Essas alterações podem interferir na circulação do sangue pelo órgão, aumentando o risco de complicações.

Identificar a causa, avaliar como o fígado está funcionando e reconhecer possíveis complicações permite compreender melhor o estágio da doença e planejar o acompanhamento de forma individualizada.

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Recebi o diagnóstico de cirrose. O que isso significa?

A palavra “cirrose” costuma provocar medo — e muitas vezes é imediatamente associada à ideia de que o fígado parou de funcionar ou de que não existe mais tratamento.

Não é necessariamente assim.

A cirrose é uma doença crônica que pode ser consequência de diferentes condições, como hepatites virais, doença hepática relacionada ao álcool, doenças metabólicas, autoimunes ou das vias biliares, entre outras. Identificar a causa é fundamental, pois ela também orienta o tratamento e o acompanhamento.

Algumas pessoas descobrem a cirrose durante a investigação de exames alterados ou de alterações encontradas em uma ultrassonografia, sem apresentar sintomas. Outras chegam ao diagnóstico após o aparecimento de alguma complicação.

“Por isso, saber que existe cirrose é apenas uma parte da avaliação. Também precisamos compreender em que fase a doença está e quais riscos precisam ser prevenidos.”

Cirrose compensada e descompensada não significam a mesma coisa

Essa é uma das distinções mais importantes para compreender a evolução da cirrose.

Ilustração de fígado na cirrose compensada

Cirrose compensada

Na fase compensada, a pessoa ainda não apresentou as complicações que caracterizam a descompensação.

Ela pode se sentir completamente bem e, em alguns casos, a doença é descoberta apenas por exames. Mas ausência de sintomas não significa ausência de risco.

O objetivo nessa fase é tratar a causa da doença, avaliar o risco de complicações e adotar medidas para reduzir a chance de uma primeira descompensação.

Ilustração de fígado na cirrose descompensada

Cirrose descompensada

Chamamos de descompensação o aparecimento de complicações relacionadas à cirrose, principalmente:

Ascite
Acúmulo de líquido no abdome.
Sangramento relacionado à hipertensão portal
Pode ocorrer, por exemplo, pelo rompimento de varizes do esôfago ou do estômago.
Encefalopatia hepática
Alterações do funcionamento cerebral que podem causar mudanças de atenção ou comportamento, sonolência e confusão.

O aparecimento de uma descompensação representa uma mudança importante na evolução da doença e exige reavaliação do tratamento e do prognóstico.

“Descompensação não significa que não exista mais tratamento. Significa que a doença entrou em uma fase que exige estratégias de cuidado diferentes.”

O que é hipertensão portal?

Para entender muitas das complicações da cirrose, precisamos falar sobre a circulação do sangue pelo fígado.

Uma parte importante do sangue que chega ao fígado passa pela veia porta, que recebe sangue proveniente do intestino e de outros órgãos do abdome.

Quando a cirrose modifica a estrutura do fígado, o sangue encontra maior resistência para atravessá-lo.

Com isso, a pressão no sistema portal pode aumentar.

Esse processo é chamado de hipertensão portal.

“A hipertensão portal ajuda a explicar por que alterações aparentemente diferentes podem surgir como consequência da mesma doença.”

Fígado com cirrose

Varizes do esôfago ou do estômago

Veias dilatadas que se formam por alterações na circulação e que, em determinadas situações, podem apresentar risco de sangramento.

Aumento do baço e redução das plaquetas

O baço pode aumentar de tamanho e a contagem de plaquetas pode diminuir.

Ascite

O aumento da pressão portal, associado a outras alterações circulatórias e hormonais da cirrose, participa da formação de líquido no abdome.

Circulação colateral

O organismo pode desenvolver caminhos alternativos para o sangue contornar a resistência encontrada no fígado.

Nem todas essas alterações aparecem ao mesmo tempo e nem todas as pessoas apresentam a mesma evolução.

Como avaliamos o risco de complicações?

A avaliação da cirrose não busca apenas identificar complicações que já aconteceram. Também procura reconhecer sinais que indiquem maior risco de desenvolvê-las.

Para isso, diferentes informações são analisadas em conjunto.

História clínica e exames laboratoriaisAjudam a avaliar o funcionamento do fígado e identificar alterações relacionadas à doença.

Elastografia hepáticaEm determinados casos, a medida da rigidez do fígado ajuda a estimar o risco relacionado à hipertensão portal.

Contagem de plaquetasQuando analisada junto com outras informações, pode contribuir para essa avaliação.

Exames de imagemPodem identificar alterações como aumento do baço, circulação colateral e ascite.

Endoscopia digestiva altaPode ser indicada em situações específicas para avaliar a presença de varizes e orientar a prevenção de sangramento.

“Nem toda pessoa com cirrose precisa realizar os mesmos exames. A avaliação depende do estágio da doença e das informações disponíveis em cada caso.”

O acompanhamento busca prevenir aquilo que ainda não aconteceu

Mesmo quando a pessoa se sente bem, a cirrose precisa de acompanhamento.

O objetivo não é apenas observar exames, mas identificar mudanças na doença e atuar precocemente sobre riscos que podem ser modificados.

Tratar a causa da doença hepática

Controlar a doença que levou à cirrose continua sendo importante mesmo quando já existe fibrose avançada.

Dependendo da causa, isso pode envolver o tratamento de hepatites virais, doenças autoimunes ou metabólicas, a interrupção do consumo de álcool ou outras medidas específicas.

Reduzir o risco de descompensação

Em algumas pessoas, existem estratégias capazes de reduzir o risco de uma primeira descompensação da cirrose.

Prevenir sangramento relacionado às varizes

Quando existe risco de sangramento, medidas medicamentosas ou endoscópicas podem ser indicadas de acordo com cada situação.

Cuidar da saúde além do fígado

Nutrição, manutenção da massa muscular, vacinação, uso seguro de medicamentos e controle de outras doenças também fazem parte do cuidado da pessoa com cirrose.

“Acompanhamento não significa apenas procurar complicações. Significa também trabalhar para evitá-las.”

Algumas complicações precisam ser reconhecidas rapidamente

Aumento do abdome ou inchaço nas pernas

Pode indicar retenção de líquido ou desenvolvimento de ascite.

Vômito com sangue ou fezes muito escuras

Pode representar sangramento digestivo e exige avaliação médica imediata.

Confusão, sonolência ou mudança importante de comportamento

Pode ocorrer na encefalopatia hepática e precisa ser avaliada.

Icterícia

O aparecimento ou piora da coloração amarelada dos olhos e da pele pode acompanhar deterioração da função hepática ou outras intercorrências.

Febre, dor abdominal ou piora importante do estado geral

Especialmente em pessoas com ascite, esses sintomas merecem atenção, pois infecções podem provocar piora rápida.

“Uma mudança importante em relação ao estado habitual de uma pessoa com cirrose merece atenção.”

Cirrose também aumenta o risco de câncer de fígado

Pessoas com cirrose apresentam maior risco de desenvolver carcinoma hepatocelular (CHC), o tipo mais comum de câncer primário do fígado.

Por isso, o acompanhamento inclui rastreamento periódico, mesmo quando não existem sintomas ou sinais de piora da doença hepática.

“O objetivo é identificar o carcinoma hepatocelular em uma fase mais precoce, antes do aparecimento de sintomas e, sempre que possível, quando ainda existem possibilidades de tratamento com intenção curativa.”

De forma geral, o rastreamento do carcinoma hepatocelular em pessoas com cirrose é realizado a cada seis meses.

Esse acompanhamento deve continuar mesmo quando a causa da doença hepática foi tratada, sempre que o risco de CHC permanecer relevante.

Quando o transplante hepático entra nessa conversa?

“Ter cirrose não significa automaticamente precisar de transplante.”

Muitas pessoas com cirrose compensada permanecem estáveis durante anos com tratamento da causa e acompanhamento adequado.

A avaliação para transplante passa a ser considerada quando o fígado já não consegue manter adequadamente suas funções ou quando surgem complicações relevantes.

Entre os cenários que podem levar a essa avaliação estão episódios de descompensação, deterioração da função hepática e determinados casos de carcinoma hepatocelular.

“Avaliar para transplante não significa que o transplante será realizado imediatamente. Significa avaliar se ele pode fazer parte do plano de cuidado e qual é o momento adequado para considerá-lo.”

Como sabemos se a cirrose está estável ou se a doença está progredindo?

Não existe um único exame capaz de responder a essa pergunta. Ao longo do acompanhamento, diferentes informações são avaliadas em conjunto:

01

Como a pessoa está clinicamente

Se surgiram ascite, encefalopatia, sangramento, icterícia ou outras mudanças.

02

Como está a função do fígado

Exames laboratoriais ajudam a avaliar o funcionamento do órgão e alterações relacionadas à doença.

03

Como está a hipertensão portal

Plaquetas, elastografia, exames de imagem e endoscopia podem ser utilizados conforme cada situação.

04

Como a doença está evoluindo ao longo do tempo

A comparação entre consultas, exames laboratoriais e exames de imagem ajuda a identificar mudanças que podem não ser percebidas de forma isolada.

05

Como está a condição geral da pessoa

Nutrição, massa muscular, função renal e outras doenças também influenciam a evolução e as decisões de tratamento.

“A evolução da cirrose não é definida por um exame isolado. É o conjunto das informações e sua evolução ao longo do tempo que orienta o acompanhamento.”

Quando procurar avaliação especializada?

  • diagnóstico ou suspeita de cirrose;
  • sinais de fibrose avançada em exames de imagem ou elastografia;
  • plaquetas persistentemente baixas associadas a possível doença hepática;
  • aumento do baço ou sinais de hipertensão portal;
  • varizes do esôfago ou do estômago;
  • ascite;
  • episódio de sangramento digestivo relacionado à hipertensão portal;
  • encefalopatia hepática;
  • icterícia relacionada à doença hepática;
  • nódulo identificado em pessoa com cirrose;
  • necessidade de definir estratégias para prevenção de complicações;
  • dúvida sobre indicação de avaliação para transplante hepático.

“O objetivo é compreender a causa da cirrose, o estágio da doença, a presença de hipertensão portal e quais riscos precisam ser acompanhados ou prevenidos.”

Dúvidas frequentes sobre cirrose e hipertensão portal

Cuidar da cirrose significa compreender o presente e prevenir o que pode acontecer no futuro

O acompanhamento da cirrose vai além de observar exames alterados.

É preciso compreender o que causou a doença, como o fígado está funcionando, se existe hipertensão portal, quais complicações já ocorreram e quais riscos ainda podem ser prevenidos.

A partir dessas informações, é possível construir um plano de cuidado individualizado — tratando a causa sempre que possível, reduzindo o risco de descompensação, realizando o rastreamento adequado e reconhecendo o momento em que outras estratégias precisam ser consideradas.

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