Dra. Fabiana OlivettiHepatologia

Saúde do fígado

Hepatites e doenças autoimunes do fígado

Alterações semelhantes nos exames podem ter causas muito diferentes.

O termo hepatite significa que existe um processo de inflamação ou lesão no fígado — mas isso não define, sozinho, o que está causando o problema.

Vírus, alterações do sistema imunológico, medicamentos e outras condições podem produzir manifestações semelhantes.

Identificar a causa é o que permite definir o tratamento e o acompanhamento adequados.

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Hepatite não significa necessariamente hepatite viral

Quando alguém recebe a informação de que pode estar com uma “hepatite”, é comum pensar imediatamente nas hepatites causadas por vírus.

Mas hepatite descreve um processo que pode ter diferentes origens.

As hepatites B e C estão entre as causas virais mais conhecidas e podem persistir por muitos anos sem provocar sintomas. Em outros casos, a inflamação do fígado pode estar relacionada a alterações do sistema imunológico, medicamentos, álcool ou outras condições.

Por isso, exames como TGO e TGP elevados, isoladamente, não permitem determinar a causa da hepatite.

“Mais importante do que identificar que existe uma inflamação no fígado
é descobrir por que ela está acontecendo.”

Essa diferença é fundamental porque doenças que podem inicialmente produzir alterações semelhantes nos exames têm evolução, tratamento e formas de acompanhamento diferentes.

Duas situações diferentes: infecção e autoimunidade

Doenças diferentes podem causar alterações semelhantes nos exames do fígado.

Hepatites virais

Nas hepatites virais, a alteração do fígado é causada pela infecção por determinados vírus.

Entre as formas que podem se tornar crônicas, as hepatites B e C têm especial importância porque podem permanecer silenciosas durante anos.

Atualmente, a hepatite C pode ser tratada com medicamentos antivirais que permitem a cura da infecção na grande maioria dos pacientes.

Na hepatite B, o objetivo e a necessidade de tratamento dependem de diferentes fatores. Nem toda pessoa com infecção pelo vírus B precisa iniciar medicamento imediatamente, mas todas precisam de uma avaliação adequada para definir a fase da infecção, o risco para o fígado e a necessidade de acompanhamento.

Doenças autoimunes do fígado

Nas doenças autoimunes, o próprio sistema imunológico participa do processo de lesão hepática ou das vias biliares.

Entre elas estão a hepatite autoimune, a colangite biliar primária e a colangite esclerosante primária.

São doenças diferentes entre si e podem apresentar padrões distintos nos exames laboratoriais, sintomas e alterações de imagem.

Em algumas pessoas, são descobertas durante a investigação de exames alterados. Em outras, podem surgir manifestações específicas ou já existir algum grau de doença hepática no momento do diagnóstico.

“O ponto em comum não é o tratamento.
É a necessidade de reconhecer corretamente qual doença está presente.”

Como descobrimos a causa?

A investigação começa pela história clínica e pelo padrão das alterações encontradas nos exames.

É importante compreender quando essas alterações surgiram, como evoluíram e se existem outros fatores que possam explicar a lesão hepática.

História clínica

Compreender o contexto, sintomas, fatores de risco, medicamentos e evolução dos exames.

Sorologias e testes para hepatites virais

Permitem identificar contato prévio, infecção atual e, quando necessário, avaliar a presença e a atividade do vírus.

Autoanticorpos e imunoglobulinas

Podem contribuir para a investigação de doenças autoimunes, mas precisam ser interpretados em conjunto com os demais achados.

Exames de imagem

Ultrassonografia, ressonância ou outros métodos podem ajudar a avaliar o fígado e as vias biliares.

Avaliação de fibrose

Métodos não invasivos, como escores laboratoriais e elastografia, podem ser utilizados para avaliar se existe cicatrização significativa no fígado.

Biópsia hepática

Não é necessária em todas as doenças. Em situações selecionadas — e especialmente quando há suspeita de hepatite autoimune — pode ter papel importante na confirmação do diagnóstico, na avaliação da atividade da doença e na definição da conduta.

“Nenhum exame deve ser interpretado isoladamente.
O diagnóstico surge da combinação entre história clínica, exames laboratoriais, imagem e, quando necessária, avaliação histológica.”

Um autoanticorpo positivo significa doença autoimune?

Não necessariamente.

Autoanticorpos podem ser encontrados em pessoas sem doença autoimune do fígado e também podem aparecer em outras condições.

Da mesma forma, algumas doenças autoimunes hepáticas podem apresentar exames sorológicos menos típicos.

Por isso, resultados como FAN, anticorpo antimúsculo liso ou anticorpo antimitocôndria precisam ser interpretados considerando o título, o padrão das alterações hepáticas, as imunoglobulinas, os exames de imagem e o restante da investigação.

Essa avaliação evita tanto diagnósticos excessivos quanto o atraso na identificação de uma doença que necessita de tratamento.

“O diagnóstico de uma doença autoimune do fígado não deve ser estabelecido — nem descartado — com base em um único autoanticorpo.”

O tratamento depende da causa e da fase da doença

Não existe um único tratamento para “hepatite”.

Na hepatite C, o tratamento antiviral tem como objetivo eliminar o vírus.

Na hepatite B, a indicação de tratamento depende de fatores como atividade viral, alterações hepáticas, presença de fibrose ou cirrose e características individuais do paciente.

Na hepatite autoimune, o tratamento busca controlar a atividade do sistema imunológico e interromper a inflamação hepática.

Nas doenças que acometem predominantemente as vias biliares, como a colangite biliar primária e a colangite esclerosante primária, a estratégia de cuidado é diferente e depende das características de cada doença.

Além de tratar a causa quando possível, também é importante avaliar quanto o fígado já foi afetado.

Isso influencia o tratamento, a frequência do acompanhamento e a necessidade de rastrear complicações.

“O nome da doença é apenas uma parte da avaliação.
Também precisamos compreender sua atividade e o impacto que ela já teve sobre o fígado.”

Por que o acompanhamento continua sendo importante?

Algumas dessas doenças podem permanecer silenciosas mesmo quando existe atividade no fígado.

O acompanhamento permite observar a resposta ao tratamento, identificar mudanças nos exames e avaliar se houve progressão ou controle da doença.

Dependendo do diagnóstico e do estágio, podem ser acompanhados:

  • exames laboratoriais;
  • atividade ou quantidade do vírus, quando aplicável;
  • resposta ao tratamento;
  • sinais de fibrose ou cirrose;
  • efeitos e segurança das medicações;
  • complicações relacionadas à doença hepática.

A frequência e os exames necessários não são iguais para todos.

“O acompanhamento deve responder a duas perguntas:
a doença está controlada e o fígado permanece protegido ao longo do tempo?”

Quando procurar avaliação especializada?

  • sorologia positiva para hepatite B ou C;
  • TGO ou TGP persistentemente elevadas sem causa esclarecida;
  • suspeita ou diagnóstico de hepatite autoimune;
  • autoanticorpos associados a alterações dos exames do fígado;
  • elevação persistente de fosfatase alcalina ou GGT;
  • suspeita ou diagnóstico de colangite biliar primária ou colangite esclerosante primária;
  • necessidade de avaliar fibrose ou possível cirrose;
  • dúvidas sobre indicação, resposta ou duração de tratamento;
  • alterações hepáticas durante uso de imunossupressores ou outros medicamentos;
  • necessidade de definir como a doença deverá ser acompanhada.

A avaliação também pode ser importante mesmo na ausência de sintomas, já que algumas dessas doenças podem evoluir de forma silenciosa.

Dúvidas frequentes sobre hepatites e doenças autoimunes do fígado

Identificar a causa permite definir o caminho do tratamento

Alterações provocadas por vírus, doenças autoimunes ou outras condições podem inicialmente produzir resultados laboratoriais semelhantes.

A avaliação especializada busca compreender qual processo está causando a lesão hepática, quanto o fígado foi afetado e quais medidas são necessárias para controlar a doença e reduzir o risco de progressão.

A partir dessas respostas, é possível definir de forma individualizada o tratamento e o acompanhamento.

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